Miss Perfumado – Cesaria Évora

Um timbre apimentado, como canela e cravo-da-índia sobre a pétala de veludo de uma rosa encarnada , perfumada!

“Un timbro speziato, cannella e chiodi di garofano su i petali di velluto di una rosa rossa antica, profumata”.

A voz da Cesária. Miss Perfumado!

As aventuras da Emily Greco – Primeiro ciclo Africano. Capítulo 14: “A mãe voadora”, excerto

………. “Eu tinha ido à ilha de S. Vicente para assistir a um festival de música caboverdiana que decorria numa bela praia de areia branca, a Baía das Gatas. Quer dizer, a Baía dos Tubarões, nome atribuído por razões obvias.
Lá tive a sorte de ver, pela primeira vez no palco, a Cesária Évora a cantar com aquela robusta, mas ao mesmo tempo extraordinariamente melódica, voz e com os pés descalços no assolhado do palco. Já a tinha ouvido, quando só os bom-vivant de São Vicente a conheciam. Os meus amigos convidaram-na para nos cantar uma “morna” para um copinho de grogue.


Ela sorriu-nos, bebeu-o, e desdobrou aquela voz aveludada que acariciou as paredes, verde core de pistácio, daquela tasca, quatro por três, enquanto a brisa do mar, que entrava pela porta, gentilmente fazia balançar as fitas de plástico que lá estavam para desencorajar a entrada das moscas e os olhares curiosos dos transeuntes.

Aquela voz inigualável e distinta envolvia todos os sentidos. Foi como se estivesse a cheirá-la e a vê-la. Era como canela e cravo-da-índia sobre a pétala de veludo de uma rosa encarnada de um vermelho profundo, como as que se encontravam nos pequenos pátios, perfumada. “Un timbro speziato, cannella e chiodi di garofano su i petali di velluto di una rosa rossa antica, profumata”. A voz da Cesária. Miss Perfumado!

Cize, o nome como é conhecida por aqui, sorriu, bebeu de um trago, encantou-nos e retomou o calmo, ligeiramente em subida, carreiro e perdeu-se na atmosfera parada que outrora reinava nas horas do meio-dia nas pequenas ilhas de todo o mundo. Perdeu-se, andando com os pés nus ou metidos em dois chinelos remendados. Disso não me recordo bem”………….

Cesaria Évora & ELEFTHERIA ARVANITAKI

Quando duas culturas se encontram, duas dores se abraçam, os olhos olham para novos horizontes. Geografias humanas que não existiam antes … antes do Amor.

“Και όταν δύο κουλτούρες σμίγουν, δυο πόνοι αγκαλιάζονται, τα μάτια ατενίζουν πιά νέους ορίζοντες ………. ανθρώπινες γεωγραφίες μη υπάρχουσες πριν ….πριν τον έρωτα”.

Não sei quantos caboverdianos conhecem esta versão da Sodad, onde a Cesaria canta junto de uma cantora grega, Arvanitaki. Mas eu sei que se hoje todos os gregos sabem de Cabo Verde, isso é graças a voz da Cize. A tal ponto que, nas grandes manifestações do povo grego contra os memoranduns e as “troikas”, que seguiram a grande crise económica de 2008, “Sodad” foi cantada na praça de “Sindagma” (a praça da “Constituição”) frente do parlamento greco.

A interpretação grega, com as letras do greco compositor Ganas, porta valor acrescentado importante e desafiador. Eu tentei uma tradução provisoria em português. Vocês, se inspirados, são chamados a melhorar este esforço. Também a escrita em Kriolo merece uma certa atenção e são muito bem vindas as vossas contribuições.

Entendendo não apenas as duas línguas, mas também as duas identidades e experiências culturais, sinceramente olho com admiração o poder da criação que brota quando as pessoas simplesmente se aproximam.

Este e o magico da ora em que as almas se fundem. A alma do povo caboverdiano e a alma do povo grego através destas duas vozes maravilhosas, Cesaria e Arvanitaki.

Kriol di Cabo Verde

Ελληνικά

do Grego … em Português

Kem mostra’ m
ess kaminho lonji
Kem mostra’ m
ess caminho lonji
ess kaminho
pa sao tome

Sodade, sodade, sodade
dess nha terra sao nicolau

Si bo ‘skreve’ me
‘mi ta srkreve b
si bo ‘skese me – mi ta skese’ b

Ate dia
ke bo volta

Armando Soares

Κοίτα τ’ αστέρι που κοιτώ
στα μάτια σου να κοιταχτώ
που έχω χρόνια να τα φιλήσω
Το βλέμμα σου το καστανό
το δάκρυ σου το γαλανό
πάλι να πιω και να μεθύσω

Sodade, sodade, sodade
που θα πει σε θυμάμαι
Sodade, sodade, sodade
μονάχη μου κοιμάμαι

Μη μ’ αγαπάς για μια ζωή
ξέρω κανένας δεν μπορεί
εύκολα φως μου να το κάνει
να μ’ αγαπάς και να με θες
για δεκατέσσερις ζωές
και πάλι εμένα δε μου φτάνει

Στιχουργός: Γκανάς Μιχάλης

Olha a estrela que estou olhando – Para me olhar nos olhos teus
que há anos eu não beijo.
O teu olhar moreno
A tua lágrima azul
Quero de novo beber e me inebriar

Sodade, sodade, sodade
Quer dizer, me lembro de ti
Sodade, sodade, sodade
Quer dizer, eu durmo sem ti

Não me ame a vida toda
Oh! Luz da minha vida,
eu sei ninguém poderá.
Ama-me e kre-mi txeu
por quatorze vidas
E mesmo assim, a mim não bastará.

Adaptação Provisoria, Emilia Venetsanou

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